Before the Madness – História da Temporada 9 – Ato 1

  • 13 de May de 2020

Diane Doplin não era estranha ao perigo. Não se sobrevive em Metal City como repórter sem desenvolver um senso para isso e uma propensão em querer segui-lo. Uma pista anônima a informara que rumores estavam se espalhando entre os o povo do pântano em Scrap Marsch que um templo antigo havia emergido da lama, ela pegou suas botas e capa de chuva e saiu correndo sem questionar muito. Ela quase desistiu, suas botas cheias de lama enquanto se arrastava pelo pântano, até encontrar o ‘templo’.

A entrada do templo tinha uma trilha de pegadas enlameadas em seus corredores imaculados, mas isso não era problema da Diane. As luzes se acenderam automaticamente quando ela entrou. Isso fez com que a repórter desse um pequeno pulo, mas assim que seus nervos se acalmaram, começou a cair sua ficha do que ela havia encontrado. O que os locais consideravam como santuário dos deuses não era nada disso. Monitores jaziam presos nas paredes, junto aos computadores que lentamente começavam a ligar. Parecia que esta estação tinha sua própria fonte de energia interna. 

“Eu devo ser a primeira pessoa em cem, não, em mil anos, a pisar neste lugar!” Ela disse, enquanto adentrava no terminal. “Que tipo de pessoa usava um lugar como esse? Soldados corajosos monitorando o movimento dos monstros? Cientistas buscando respostas?”

Diane inclinou-se sobre o painel de controle do terminal. Eram cartas, pelo que ela pôde identificar, mas o que isso significava? Ela começou a apertar uma tecla após a outra, checando qual resposta o computador dava. 

“Bem-vindo(a), usuário”, uma voz digital disse enquanto ela apertava as teclas. “Você está buscando um diretório específico? Por favor escolha os caminhos disponíveis”. 

Diane entrelaçou os dedos enquanto a tela foi rapidamente preenchida com uma lista de nomes. A repórter deduziu que havia tropeçado em uma espécie de silo de dados. Um nome chamou sua atenção, um nome familiar. 

“Oh, Jada, querida”, disse Diane, com um sorriso ansioso. “Talvez tenha chegado a hora de te expor numa notícia. Vamos ver o que você está escondendo em seu passado…”

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Jada Jemison leu as manchetes do jornal enquanto sentava no banco de trás de um táxi amarelo, janelas com películas azuis. O motorista havia lhe passado uma certa estranheza, com seus dentes amarelos, olhos redondos e cabelos ruivos, mas um motorista de táxi era um motorista de táxi, e ela precisava chegar ao trabalho. O homem corpulento puxava conversa com ela enquanto faziam o trajeto, suas piadas eram ruins e um pouco sem gosto, mas Jada fazia seu melhor para ser educada. 

Ela tentou ouvir a música enquanto ele pulava entre estações de rádio. O motorista não parecia se contentar em nada. Os ouvidos da Jada se animaram quando ela ouviu um heavy metal tocando nos alto-falantes, balançando a cabeça no ritmo das batidas. Mas o motorista de táxi mudou de ideia bem rápido. “Não sei como as pessoas aguentam esse barulho. Pode escrever, ninguém vai ouvir esse tipo de ‘música’ daqui cem anos!”, o motorista disse. Pouco depois, a Jada já nem estava prestando muita atenção nele. 

“…E foi o que eu falei pra ele, ‘Amigão, se você quiser andar, já te deixo aqui mesmo’. Ainda abri a porta pra ele e tudo. Só não mencionei que tinha uma poça grande como uma cratera. Ele pisou bem nela e se molhou inteiro!”

Esse aí gosta de uma palhaçada, Jada pensou, mas só deu um sorrisinho. 

“Chegamos, meu anjo. Vai ficar quarenta e três, setenta e cinco.”

Jada puxou seu cartão e passou pro motorista, antes de pisar na área externa do complexo. Eles estavam construindo rapidamente, expandindo as instalações de pesquisa espacial e por isso havia várias equipes de construção trabalhando dentro da cerca metálica. Jada andou em direção ao prédio principal do complexo, passando por uma dessas equipes que despejavam cimento onde ela sabia que seria a base da plataforma de lançamento. 

“Dia, Jada!” um dos trabalhadores da construção, um homem chamado Sly, cumprimentou-a enquanto ela passava. Ela já havia conversado com ele algumas vezes e o achava bastante agradável. Ele vestia suspensórios simples na maior parte do tempo, vestindo um boné de baseball. Seu sorriso era emoldurado pela barba bem aparada e loira. 

“Bom dia, Sly. Como vão as coisas hoje?”

“Vai tudo bem. Temos bastante trabalho pela frente. Parece que vocês da ciência precisam de muita construção e bem rápido”.

“Sim! Recebemos vários investimentos, mas isso requer um aumento de nossas capacidades. Ainda temos muito trabalho pra fazer”.

“Antes que o mundo acabe, né?”

Jada deu um passo pra trás, gaguejando. Como o Sly sabia disso? As descobertas deveriam ser confidenciais! As equipes de exploração nos Depths foram interrogadas, mas a informação que eles encontraram, os monstros adormecidos, foram classificadas como informações confidenciais dos níveis mais altos. “Eu, então, quer dizer…”

“Nós não somos cegos, Jada”, disse Sly, se apoiando em seu caminhão. “Todo mundo extraindo petróleo, certo? E vocês encontraram alguma coisa naquelas profundezas. Algo pior do que a briga que tá rolando.”

“Como você sabe disso?” Jada respirou fundo enquanto acalmava os nervos. Ela não queria revelar muita coisa, embora fazer essa pergunta já era algo arriscado. 

“Senhorita Kovaleva”.

Jada ficou inquieta. Lyudmila Kovaleva era um ícone da instalação, mas ela tinha a tendência de causar ira nas autoridades, particularmente por falar alto demais sobre assuntos que eram secretos. Jada tinha muito respeito por ela, mas sobre as coisas que haviam sido encontradas nos Depths… às vezes era melhor nem saber!

“Então é verdade?”

“Temo que não posso falar sobre isso, Sly”, disse Jada. 

“Os outros caras, eles dizem que estamos construindo todas essas coisas para podermos começar a sair do planeta. Que vocês cientistas vão nos levar pro espaço”.

“Isso é o que você acha?” ela perguntou, com cautela. 

“Não”, disse Sly, lentamente. Ele deu de ombros. “Mas acho que essa é a direção que vocês estão indo. Como uma cápsula do tempo. Pra escapar dessa loucura antes de nos destruirmos”. 

“Tá…” Jada pensou no que ela ia falar. Ele estava perto demais da verdade para tentar manter-se educada e alegre. “As coisas estão piorando por aqui, Sky. A Senhorita Kovaleva nos avisou disso, de um ponto onde não teríamos mais volta. O Project Ark foi desenvolvido para ser uma contingência caso… outros… métodos venham a falhar”. 

“Então é isso”.

Da maneira como ele disse isso com resignação, Jada ficou devastada. Não era justo, e ela sabia disso. Ela se voluntariou para essa missão não por um desejo egoísta, mas por que representava o que talvez seria a última esperança da humanidade. A Senhorita Kovaleva deixou claro com suas expedições que não existia uma maneira de evitar o Apocalipse. Não mais. 

“Os Hiberah acham que conseguem”, disse Sly, sua voz traindo o brilho tênue de esperança que tinha nesse pensamento.

“Talvez”, a relutância de Jada era bem clara. “Mas mesmo assim, as projeções…. eu não deveria estar falando nada disso. Sly, você não deveria saber nada disso!”

“Bom, de qualquer forma, eu não ia contar nada para ninguém. Mas eu acho que a maioria de nós sabe. Mas posso te perguntar uma coisa, Jada?”

“O que foi?”

“Não deixe que esqueçam de nós. Quando você estiver lá em cima, olhando pra nós que estamos presos aqui embaixo, lembre-se de nós. Não deixe que nossas lembranças sejam esquecidas”.

“…” Jada não disse nada de imediato. O que ela poderia dizer? O pedido, a responsabilidade, pesavam em seus ombros. “Deixa comigo, Sly. Vocês não serão esquecidos”.

~~~~~

Diane recostou-se na cadeira. Quase todos os outros registros de Jada seguiam um tema semelhante, entrando em detalhes sobre as pessoas que conheceu e trabalhou junto durante os dias obscuros antes de sua viagem ao céu. Mas um nome continuava a aparecer: Lyudmila Kovaleva.

Essa figura misteriosa pairava sobre as notas de Jada mas Diane não pôde deixar de notar que ela nunca aparecia diretamente. 

Ainda restava diversos artigos e fotos de Kovaleva. Havia algumas que até mostravam ela numa camisa de força, parecendo uma louca enquanto gritava para a câmera. Outras mostravam ela liderando protestos. 

Enquanto a repórter checava os outros registros, os alto-falantes do computador fizeram um “ping”. Diane se viu fora do sistema, e as teclas pararam de funcionar. Enquanto ela se esforçava para tentar conseguir digitar, um upload foi iniciado por alguma outra coisa. 

O nome de usuário dizia Kovaleva.

“Olá. Vejo que você finalmente me encontrou. Deixe-me ajudar.”

Continua…